E aí que estou ficando monotemática. Só falo de amor, percebi. E de amor sofrido, de desilusão, de erro. O grande lance é que, no final das contas, nem é o tal do sofrimento que me define. Angústia é a minha palavra. Isso eu tenho e muito. Vivo um momento que não é e nem deixa de ser, aquele momento em que o mundo se apresenta todo lindo e garboso pra você e, em questão de segundos, cospe na sua cara, te derruba feio. Aí eu fico toda enfurecida com ele, e desconto no amor, mais ainda, na minha capacidade de amar, o que é uma tremenda injustiça, comigo e com ele. Sou feita inteirinha de paixões silenciosas. Muito silenciosas. Mudas, vez ou outra. Jogar na cara, clamar pela atenção, vomitar o amor no outro, fazer da voz o maior instrumento nunca foi o meu estilo. Não mesmo. Só que tanta coisa presa assim cansa. Mata, destrói a capacidade de olhar pro lado com ternura. Quando você pisca, já está na situação mais delicada: ou você é tomada pela raiva e se arma inteira, desespero confinado, você e você mesma, ou passa tal qual um trator por cima de tudo, agarra-se à indiferença e vive como se nada tivesse acontecido, pior, como se sua dor, o seu querer, o seu corpo, a sua alma, não valessem nada pra ninguém, nem pra você mesma. O difícil é você se desagarrar com alegria, com esperança, com contentamento apenas por ter sentido. O que, sinceramente, eu acho que já é muita coisa. Mesmo.
Tudo isso pra chegar no que me levou a começar a escrever isso aqui, um conselho lindamente duro de uma amiga: "fala, resolve isso, bota pra fora, mesmo que seja muito doloroso, mesmo que atrapalhe um tanto de coisa, fala pra sua vida seguir". Eu já tinha total consciência disso tudo. Total. Mas ao ouvir isso numa situação tão peculiar, dividindo uma angústia que ela bem conhecia, vi que minha escrita tão carregada de sofrimento não é porque minhas paixões estão frustradas, pesadas. É pela minha fuga. Pela covardia de não parar o movimento do mundo, a roda gigante desenfreada do mundo, e colocar o dedo em riste pra dizer que eu estive ali, com o coração, ainda que não exposto assim tão abertamente, mas entregue em tantos olhares, tantos gestos, e tanta vontade de estar. E de ser, junto, minimamente junto. Eu não escrevo com tristeza, afinal. Eu escrevo engasgada, freada, reprimida. Eu não estou inteira. Isso, sim, dói.
7 comments:
O amor é o único tema, Silvia. Silencioso ou berrado, refreado ou derramado, adornado de outras roupagens, de outras estéticas , estilos, intenções, criações, o amor é a única invenção humana que reside no instinto de uma verdade possível que nos salva da falta mesma de sentido. Não apenas o amor romântico, mas o que nos move em nossos afetos, amizades, desejos, generosidade e compartilhamento. A angústia de algo que remeta a alguma espécie de desamor nos dói e nos mata languidamente sim, mas também ressuscita e nossa infindável capacidade de amar que nos define e redime, moçoila. O amor imprime sua escrita em nossa urdidura. E a escrita esboça a gênese precária do amor e das dores de seu parto, de sua morte e de sua perene ressurreição.
Não nos fazemos e não nos criamos inteiros, Silvia Michelle. Mas amando inteiramente, edificamos a escultura sublime construída de nossos pedaços.
O amor é o único tema, Silvia. Silencioso ou berrado, refreado ou derramado, adornado de outras roupagens, de outras estéticas , estilos, intenções, criações, o amor é a única invenção humana que reside no instinto de uma verdade possível que nos salva da falta mesma de sentido. Não apenas o amor romântico, mas o que nos move em nossos afetos, amizades, desejos, generosidade e compartilhamento. A angústia de algo que remeta a alguma espécie de desamor nos dói e nos mata languidamente sim, mas também ressuscita a nossa infindável capacidade de amar que nos define e redime, moçoila. O amor imprime sua escrita em nossa urdidura. E a escrita esboça a gênese precária do amor e das dores de seu parto, de sua morte e de sua perene ressurreição.
Não nos fazemos e não nos criamos inteiros, Silvia Michelle. Mas amando inteiramente, edificamos a escultura sublime construída de nossos pedaços.
Se há um sentimento terrível em nossa existência é o "não se jogar"..Ou se jogar pela metade..À medida que o tempo passa, estar inteira em uma situação é cada vez mais difícil.E se alma sofre com isso, "almas poeteiras", acho que não que não há outro caminho senão o resgate. Viver pela metade mata...
Bjs. Sumimos pela vida...
O mocinho aí de cima escreveu bem: "Viver pela metade mata..."
Um texto enviado por um amigo querido tb fala um pouco disso: "Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para SEMPRE!!"
Ah, amorosa...
"Jogar na cara, clamar pela atenção, vomitar o amor no outro, fazer da voz o maior instrumento nunca foi o meu estilo." --> Não pude deixar de lembrar de uma doida no carnaval. Ave maria. rs
Mas é bem melhor botar pra fora.. De preferência do jeito mais sereninho hihihihi
Arrasou de novo, amorosa! Só leio seus textos com cara de besta..
mas tem que botar pra fora mesmo, amorosa. não acho ruim, é a minha incapacidade mesmo. viver pela metade mata, não tenho dúvidas disso. é em busca dessa "inteireza" que estou. e tenho plena consciência que esse estar inteira não é estar completa - isso sim impossível, ainda bem - mas não se deixar pelo caminho, ter a intensidade do todo.
Lindo! Mesmo.
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